Foto de Fernanda Brussi.
Não parava de chover. O dia todo havia sido de chuva e frio. Elizabeth estava sentada em sua cama lendo um livro. Na verdade, não era um livro qualquer, era o seu livro preferido. A história falava sobre uma menina que era belíssima, e com isso, conseguiu as maiores riquezas. Apenas usando a sua beleza para encantar os homens ricos e tolos que apareciam em sua frente. Elizabeth se identificava com ela, porém, Elizabeth já nascera em uma família nobre, não lhe faltava mais nada. Apenas um noivo.
Casamento.
Elizabeth não gostava muito desta palavra. Ela tinha medo de se casar. Não
queria perder a “liberdade” que tinha, não queria ficar presa a um único homem.
Isso é cansativo e tedioso. O que Elizabeth queria mesmo era se divertir com os
homens mais bonitos do reino. Mas, ela já possuía 16 anos, a qualquer momento a
sua mãe poderia entrar pela porta de seu quarto e anunciar que o seu noivado já
estaria arranjado com algum conde.
E ela
teria de se mudar.
Alguém
bate na porta de seu quarto e Elizabeth se assusta. Ela estava entretida com o
livro.
- Pode
entrar! – Falou.
A porta
se abriu e Anna entrou no quarto. Muito séria. Elizabeth fechou o livro e se
levantou.
- O que
aconteceu, mamãe? – Perguntou Elizabeth.
Anna
suspirou.
- Eu
estava conversando com o seu pai e com a Orsolya da família
Nádasdy. – Anna falou olhando para o chão.
A família Nádasdy
era amiga da família Bathóry, a qual Elizabeth pertencia, há muitos anos.
Elizabeth se lembrava vagamente que quando era criança, ela brincava com o
filho mais velho de Orsolya.
- O que vocês
estavam conversando? – Perguntou Elizabeth.
- Irás casar-te com
o Filho dela. Ferenc Nádasdy.
Elizabeth ficou em
choque. Casamento? Não. Elizabeth sorriu. Um sorriso meio assustado.
- Isto é uma piada,
certo? – Falou ela. Mas Anna estava séria, ela não parecia estar de
brincadeira. O sorriso sumiu dos lábios de Elizabeth. Lágrimas desciam pelo seu
rosto.
- Não adianta
chorar, Elizabeth. Está decido. Irás casar-te com Ferenc, e fim da história.
Sem discursões. – Anna virou-se e saiu do quarto, batendo a porta com força
atrás de si.
Elizabeth jogou o
livro que estava em sua mão contra a porta, e se atirando na cama, sufocou um
grito contra o travesseiro. E agora? O que ela faria? Se ela se casasse não
poderia sair para se divertir e teria de ficar no castelo ajudando o marido
Ferenc com os negócios. Isso era deprimente.
Ela não via Ferenc
há uns doze anos. “Como será que ele está agora?” pensou Elizabeth. Se ele
fosse bonito, seria tudo muito mais fácil.
Os Nádasdy moravam no
Castelo de Sárvár, em Vas County, no oeste da Hungria. E
Elizabeth morava no Castelo de Čachtice no Oeste da Eslováquia. Ela não
queria se mudar, não queria sair do castelo onde havia nascido e crescido.
Elizabeth se levantou e saiu do quarto
correndo. Correu no meio da chuva até o jardim e lá ficou sentada, no chão
lamacento embaixo de uma árvore. As lágrimas desciam pelas bochechas e se
misturavam com as gotas de chuva que caiam sobre ela, e Elizabeth não as
enxugava. Depois de um tempo começou a soluçar, e seus olhos ardiam.
- Senhorita Elizabeth? – De repente a menina
ouviu uma voz. Elizabeth reconhecia de longe. Essa voz fina e irritante só
poderia pertencer a uma única pessoa.
- O que você quer? – Falou Elizabeth se
levantando.
Mary estava em pé atrás da árvore segurando
um guarda-chuva, e quando viu Elizabeth seu rosto se iluminou.
- Ainda bem que você está aqui senhorita! –
Falou a empregada se aproximando. – Sua mãe mandou avisa-la que os da família
Nádasdy virão aqui para um jantar Domindo à noite. - Elizabeth, que estava
encharcada, não respondeu, ficou olhando para o chão com os olhos inchados.
- Senhorita, vamos sair da chuva, por favor,
assim ficarás resfiada. – Mary pegou Elizabeth pelo braço e a conduziu de volta
ao castelo. Elizabeth se deixou levar. Não estava com animo para brigas, ela só
pensava no maldito casamento.
Ao voltar para o castelo,
Mary deixa Elizabeth no quarto. Elizabeth estava morrendo de frio. Trocou de
roupa e vestiu um vestido bem quente. Sentou-se em sua penteadeira e desfez o
coque que prendia os longos cabelos molhados. Enxugou-os com uma toalha, e
começou a penteá-los. Daqui a algumas horas teria que descer para jantar, e era
nessa hora que ela falaria com os seus pais sobre o que pensava sobre esse
casamento. Se recorresse ao seu pai, talvez ele pensasse duas vezes sobre o
assunto. Quando ela era pequena e queria alguma coisa que sua mãe não permitia,
ela sempre recorria ao pai, e mesmo ele sendo tão ausente, não aguentava ver a
filha chorando. Elizabeth tentaria fazer a mesma coisa neste jantar.
Ao terminar de
desembaraçar as madeixas fez uma trança que descia até a cintura e desceu as
escadas em direção à sala de jantar. Ao chegar lá, já encontrou os seus pais
sentados na mesa. O jantar da noite era sopa. Sentou-se ao lado da mãe e pensou
no que iria falar enquanto Mary enchia o prato com a sopa de legumes.
- Tudo bem minha
filha? – Perguntou finalmente Jorge.
Elizabeth forçou um
sorriso.
- Sim...
- Se tu estás assim
para tentar fazer o teu pai mudar de ideia, pode parar. Nós já estamos
decididos. – Falou Anna. - Tu irás casar-te com Ferenc Nádasdy e vai morar com
ele no Castelo de Sárvár. Só assim irás parar de sair com todos os homens que
te cortejam.
Elizabeth estava sem
palavras. Anna conhecia a filha como ninguém, sabia que ela tentaria fazer o
pai ficar comovido com a tristeza.
- Pai, por favor,
não permitas que eu me case com este homem. – Choramingou Elizabeth. – Eu quero
casar-me com alguém que eu realmente ame! Eu nem conheço esse Ferenc!
- Eu também não
conhecia teu pai quando me casei com ele. Mas nem por isso fiquei tentando
mudar a decisão de meus pais. – Falou Anna.
- Acontece, mamãe –
Começou Elizabeth se levantando. – que eu não sou como a senhora!
Anna levantou-se
também. Enquanto Jorge ficava sentado tomando a sua sopa, fingindo que nada
estava acontecendo, como sempre.
- O que você quer
dizer com isso?
- A senhora sempre
fez tudo o que os outros mandavam! Nunca tinha opinião própria! Mas eu quero
ser ouvida, quero fazer o que quero e não o que os outros querem! Eu quero
fazer a minha história como eu bem entender, porque, afinal, a vida é minha!
- Cale-se! –
Advertiu Anna, alterada.
- Eu não irei
participar deste jantar ridículo de Domingo! Eu não irei me casar com Ferenc!
- Já chega! –
Manifestou-se Jorge se levantando. – Você vai participar do jantar com os
Nádasdy e irá se comportar...
- Papai!
- Irás se casar com
Ferenc e vais morar com ele no Castelo de Sárvár. É a minha decisão.
Elizabeth correu
para seu quarto. Não acreditava que seu pai havia dito isso. Ela os odiava.
Queria poder fugir, e ir para um lugar onde ninguém a encontrasse. Mas os portões
do castelo estavam sendo vigiados pelos guardas. Seria impossível. Se ela
tentasse fugir, e se os guardas a pegassem pioraria a situação com os seus pais
e Elizabeth teria que escutar mais sermões.
Ela iria participar
do jantar de domingo. Mas ela faria de tudo para os Nádasdy mudarem de ideia
sobre o casamento.
- Sua filha é
realmente muito bonita Jorge. – Falou Orsólya.
Era domingo, noite do bendito jantar com os
Nádasdy. Elizabeth estava sentada ao lado de Ferenc. A conversa estava
terrível. Jorge e Anna não tinham o que conversar com Orsólya, que havia vindo
só com o filho, já que era viúva. O marido dela havia sido morto em uma guerra.
Elizabeth queria gritar. Não estava aguentando tudo aquilo. E durante toda a
conversa, Ferenc não havia dito uma só palavra.
O futuro marido de Elizabeth tinha os cabelos
na altura do pescoço. Negros e brilhantes. Os olhos castanhos cor de mel,
deixaram Elizabeth desconcertada quando ele os pousou sobre ela. Ferenc possuía
um olhar intenso. Alto e nem magro, nem gordo. Ele parecia ser o tipo de homem
que Elizabeth sempre quis para ela. Mas Elizabeth não podia deixar se abalar
com a beleza de Ferenc. Ela precisava fazer de tudo para os Nádasdy terem uma
impressão errada sobre ela.
- Então Elizabeth –
Começou Orsólya – Conte-me sobre você. O que gosta de fazer?
Orsólya era baixa e
magrela, possuía cabelos brancos e um nariz pontudo com uma verruga. Parecia
uma bruxa.
Elizabeth demorou um
pouco para responder.
- Eu amo comer. –
Falou enchendo a boca de comida. – Também gosto muito de dança, e de sair com
minhas amigas para conhecer vários garotos. – Completou falando com a boca
cheia. Enquanto Elizabeth falava, pedaços da comida voaram de sua boca e foram
parar em cima de Ferenc.
Fez-se um silêncio
na mesa. Orsólya e os seus pais pareceram não gostar muito do que a garota
havia dito.
Somente Ferenc havia sorrido, e Elizabeth não acreditava que ele
havia achado graça na falta de educação dela.
- Com licença –
Começou Anna se levantando. – Filha, vamos conversar um pouco na cozinha?
Elizabeth se
levantou e seguiu a mãe em direção à cozinha do castelo.
- O que você pensa
que está fazendo? – Perguntou Anna.
- Eu não sei do que
a senhora está falando mamãe. – Elizabeth fez-se de desentendida.
Anna pegou a filha
pelo braço e advertiu-a:
- Pare com suas
gracinhas agora! Caso contrário será pior pra você!
Elizabeth puxou o
braço de volta.
- Não se preocupe. –
Falou a menina com ar debochado.
As duas voltaram
para a sala de jantar. Anna sentou-se em seu lugar, mas, Elizabeth continuou em
pé.
- Não vai sentar
senhorita? – Perguntou Ferenc. Falando pela primeira vez na noite.
- Não obrigada. Já
estou satisfeita. – Falou Elizabeth saindo da sala de jantar.
Ela precisava de um
pouco de ar, resolveu ir para o jardim e lá se sentou no banco embaixo da
árvore.
Elizabeth observava o céu estrelado. A noite estava tão linda. Pena que
ela estava neste inferno, e não poderia desfrutar de toda a beleza da noite. A
lua estava cheia, e brilhava intensamente. O brilho da lua caia sobre Elizabeth
fazendo a pele da garota parecer ainda mais branca.
- Com licença –
Elizabeth assustou-se ao ouvir a voz de um homem. Quando virou a cabeça, viu
que Ferenc havia ido atrás dela. Ele parecia mais bonito do lado de fora do
castelo, sobre as estrelas.
- O que você está
fazendo aqui? – Perguntou Elizabeth. Ferenc andou até onde ela estava e
sentou-se ao seu lado.
- Eu só queria
conversar com você. – Começou ele. - A senhorita parecia não estar gostando
muito do jantar.
- Pra falar a
verdade, eu estava odiando aquele jantar.
- Eu também. – Falou
Ferenc surpreendendo Elizabeth. – Na verdade, eu não estava gostando nem um
pouco desta ideia de casamento.
Elizabeth olhou para
ele, surpresa. Então, Ferenc pensava como ela. Que ótimo.
- Eu falei para a
minha mãe que eu queria me casar com uma garota que eu conhecesse e amasse. Mas
ela não me escutou.
Ferenc falava com
muita frustração. Elizabeth continuava calada, observando-o.
- Mas depois que eu
te vi, depois que eu vi quão bela tu és – Fez uma pausa – vi que esse casamento
pode ser uma coisa boa.
Elizabeth sorriu
envergonhada. Já estava cedendo aos encantos do futuro marido.
- Quero muito poder
conhecer-te melhor. – Falou Ferenc fitando-a.
- Igualmente, meu
conde. – Falou Elizabeth e os dois sorriram.
Ferenc pegou a mão
de Elizabeth. Os dedos magros e macios sempre deixavam os homens encantados. Ele
beijou a mão da garota, e voltou a fita-la. Não desviava os olhos cor de mel dos
olhos cor do céu de Elizabeth.
Ela sentiu as bochechas corarem.
- Espero poder encontra-la
novamente em outra oportunidade. – Falou. Elizabeth sentiu seu coração apertar.
- Já vais partir? –
Perguntou.
- Creio que minha mãe
queira ir ainda hoje.
Elizabeth apertou a
mão de Ferenc. Já havia esquecido a raiva, os planos de acabar com o noivado...
Ela só pensava no homem encantador que estava em sua frente. Mal se viram e já
teriam de se separar? Não. Elizabeth queria passar mais tempo com ele,
conhece-lo melhor. Já estava pensando até na possibilidade de casar-se com ele,
como os seus pais queriam.
Ferenc era um homem
encantador. Ele a estava conquistando.
- Podes ficar para
dormir aqui. Seria perigoso voltar para a Hungria hoje à noite. – Elizabeth tentou
convence-lo de ficar no castelo e só voltar para casa amanhã.
Ferenc se deixou
convencer. Falou com a sua mãe e eles resolveram passar a noite no Castelo de Čachtice, lar de Elizabeth.
Na hora de dormir, Elizabeth não conseguiar
pregar os olhos. Ainda sentia a boca macia de Ferenc em sua mão. Não parava de
pensar naqueles olhos profundos e cativantes.

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